Por que existem três leituras na Missa?

Entenda por que a Igreja proclama três leituras na Missa e qual é o significado do Antigo Testamento, do Salmo, das cartas dos Apóstolos e do Evangelho.

9/20/20265 min read

Por que existem três leituras na Missa? Entenda a Liturgia da Palavra

Quem participa da Missa aos domingos está acostumado a uma sequência que se repete: uma leitura, o Salmo, uma segunda leitura e, por fim, o Evangelho. Mas você já se perguntou por que a Igreja faz isso? Por que ouvimos primeiro um texto do Antigo Testamento, depois uma carta dos Apóstolos e, por último, o Evangelho? E por que o Evangelho recebe um tratamento tão especial?

Nada disso é por acaso. A Liturgia da Palavra possui uma estrutura própria e nos conduz, passo a passo, ao centro da fé cristã: Jesus Cristo.

Uma única história da salvação

Aos domingos e solenidades, a Liturgia da Palavra normalmente apresenta três leituras: uma do Antigo Testamento, uma dos escritos apostólicos, geralmente das cartas do Novo Testamento, e o Evangelho. Entre elas está o Salmo Responsorial, que constitui a resposta orante da assembleia à Palavra que acabou de ser proclamada.

Essas leituras não são textos independentes colocados lado a lado. Existe uma unidade profunda entre elas, porque toda a Escritura encontra sua realização em Cristo. O Antigo Testamento prepara o caminho, os Apóstolos testemunham aquilo que Deus realizou em Cristo e o Evangelho anuncia a própria vida e obra de Jesus. É uma única história: a história da salvação.

A primeira leitura: o Antigo Testamento à luz de Cristo

A primeira leitura normalmente é retirada do Antigo Testamento. Ela pode apresentar um acontecimento da história de Israel, um ensinamento da Lei, a palavra de um profeta ou um texto sapiencial.

Ao ouvi-la na Missa, porém, não estamos simplesmente recordando acontecimentos antigos. A Igreja lê o Antigo Testamento à luz de Cristo. Depois da Ressurreição, Jesus encontrou os discípulos no caminho de Emaús e, começando por Moisés e passando pelos Profetas, mostrou-lhes aquilo que as Escrituras diziam a seu respeito (Lc 24,27).

Por isso, a primeira leitura frequentemente possui uma relação com o Evangelho daquele domingo. Uma promessa, uma profecia, uma figura ou um acontecimento do Antigo Testamento pode ajudar a compreender melhor aquilo que Cristo realiza. O que Deus começou a revelar no Antigo Testamento encontra em Cristo sua plenitude.

O Salmo: a Palavra se transforma em oração

Depois da primeira leitura, vem o Salmo Responsorial. Ele possui uma característica especial: não somos apenas ouvintes. Respondemos à Palavra de Deus com a própria Palavra de Deus.

Os Salmos são orações inspiradas que expressam louvor, súplica, arrependimento, confiança, sofrimento e esperança. Por isso, o Salmo não é simplesmente uma pausa musical entre duas leituras. Ele faz parte da própria Liturgia da Palavra e ajuda a assembleia a acolher aquilo que acabou de ouvir.

É uma das grandes riquezas da liturgia: a própria Escritura nos ensina a responder a Deus.

A segunda leitura: o testemunho dos Apóstolos

A segunda leitura normalmente vem das cartas do Novo Testamento, como as de São Paulo, São Pedro, São João ou São Tiago. Nela escutamos o testemunho e o ensinamento dos Apóstolos e das primeiras comunidades cristãs.

Esses textos mostram como a fé em Cristo transforma a vida. Falam de conversão, caridade, perseverança, sofrimento, esperança, santidade e vida comunitária. A segunda leitura ajuda, portanto, a fazer a ligação entre o anúncio do Evangelho e a vida concreta dos cristãos.

Não basta conhecer Cristo. É preciso aprender a viver n'Ele.

O Evangelho: o ponto culminante

Então chega o momento central da Liturgia da Palavra: o Evangelho. A assembleia se levanta, o Evangelho é proclamado com solenidade e, antes de ouvi-lo, fazemos três pequenos sinais da cruz: na testa, nos lábios e no coração.

Tudo isso expressa a reverência diante de uma Palavra que ocupa um lugar singular na celebração. No Evangelho, a Igreja escuta o anúncio da vida, da morte e da Ressurreição de Jesus Cristo. É o próprio Cristo quem está no centro da proclamação.

A Igreja dá ao Evangelho uma honra especial não porque os outros livros da Bíblia sejam menos Palavra de Deus, mas porque o Evangelho nos coloca diante do mistério de Cristo, que é o centro de toda a Escritura.

Por que fazemos três sinais da cruz antes do Evangelho?

É um dos pequenos gestos da Missa que fazemos quase automaticamente. Antes do Evangelho, traçamos uma cruz na testa, outra nos lábios e outra no peito.

O gesto expressa um pedido simples e profundo: que a Palavra de Cristo seja compreendida pela mente, proclamada pelos lábios e acolhida no coração. Não queremos apenas ouvir o Evangelho; queremos compreendê-lo, professá-lo e vivê-lo.

Talvez seja por isso que esse pequeno gesto mereça ser feito com mais consciência na próxima Missa.

Por que ficamos de pé para ouvir o Evangelho?

A postura do corpo também participa da liturgia. Ficamos de pé para ouvir o Evangelho como sinal de respeito e atenção diante de uma proclamação solene. É a postura de quem está pronto para escutar e acolher.

Ao longo da Missa, nossos gestos — ficar de pé, sentar, ajoelhar, fazer o sinal da cruz — não são meras formalidades. Eles ajudam o corpo a participar da oração e expressam exteriormente aquilo que a fé realiza interiormente.

A Liturgia da Palavra e a Eucaristia formam uma única celebração

Talvez aqui esteja uma das coisas mais importantes para compreender. Às vezes, podemos pensar que a primeira parte da Missa é apenas uma espécie de introdução àquilo que realmente importa: a Eucaristia. Não é assim.

A Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística formam uma única celebração. Na Missa, Cristo alimenta a Igreja com sua Palavra e com sua vida entregue por nós na Eucaristia.

A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, ensina que essas duas partes estão tão intimamente unidas que formam um único ato de culto. Por isso, ouvir atentamente as leituras não é uma preparação opcional para a “parte importante” da Missa. A Palavra proclamada já é parte essencial da celebração.

Por que as leituras da Missa mudam a cada domingo?

Quem participa regularmente da Missa talvez já tenha percebido que as leituras não se repetem todos os domingos. A Igreja possui um Lecionário, que distribui uma grande riqueza de textos bíblicos ao longo do ano litúrgico.

Aos domingos, o ciclo principal das leituras é organizado em três anos: Ano A, Ano B e Ano C. Isso permite que a assembleia tenha contato com uma parte muito ampla das Escrituras, em vez de ouvir sempre os mesmos textos.

A liturgia conduz os fiéis, assim, por uma verdadeira escola bíblica ao longo do ano. Mas há algo que permanece sempre igual: Cristo está no centro.

Na próxima Missa, escute de outra maneira

Da próxima vez que participar da Missa, experimente prestar atenção à relação entre as leituras. Ao ouvir a primeira, pergunte a si mesmo o que aquele texto revela sobre Deus e sobre a história da salvação. No Salmo, perceba como a Igreja responde à Palavra. Na segunda leitura, procure aquilo que os Apóstolos estão ensinando sobre a vida em Cristo.

E, quando chegar o Evangelho, faça uma pergunta ainda mais simples:

O que Cristo está dizendo hoje à sua Igreja?

As três leituras não são três textos soltos. Elas formam um caminho: o Antigo Testamento prepara, os Apóstolos testemunham e o Evangelho nos conduz a Cristo.

Depois de ouvir a Palavra, a Igreja se dirige ao altar para celebrar a Eucaristia. E assim compreendemos que a Missa não é uma coleção de partes desconectadas, mas uma única celebração na qual Cristo reúne seu povo, fala à sua Igreja e se entrega a ela.

Talvez, depois de entender isso, aquelas três leituras que antes pareciam apenas uma sequência habitual nunca mais sejam ouvidas da mesma maneira.